25/06/2025
Este artigo não tem por objetivo emitir juízo de valor sobre governos ou gestões específicas. Trata-se de uma análise técnica e imparcial sobre o ambiente econômico brasileiro a partir de dados recentes, com foco nas implicações para empresários, gestores e investidores.
O ano de 2025 consolida um paradoxo preocupante da economia brasileira: nunca se arrecadou tanto em tributos — e nunca foi tão difícil empreender. A receita pública bate recordes consecutivos, mas a base produtiva dá sinais de exaustão.
Segundo dados do Governo Federal, o governo arrecadou cerca de R$ 2,65 trilhões trilhões em 2024, os maiores volumes históricos de arrecadação tributária. Ainda assim, o cenário atual é marcado por aumento de pedidos de recuperação judicial, alta inadimplência, custo elevado do crédito e instabilidade para investidores.
Recorde de inadimplência e pedidos de recuperação
Dados divulgados pelo InfoMoney mostram que mais de 7,2 milhões de empresas estão inadimplentes em 2025, sendo a grande maioria micro e pequenas. O número de pedidos de recuperação judicial aumentou mais de 60% em 2024 e segue em alta este ano.
A conjuntura combina juros altos, inflação persistente, crédito restrito e fragilidade na gestão empresarial. Não é incomum encontrar negócios que cresceram sem planejamento financeiro, com baixa governança e sem separar adequadamente a estrutura jurídica do patrimônio pessoal.
Carga tributária consome metade do ano de trabalho
Estudo do IBPT, repercutido pela CNN Brasil, revela que o brasileiro precisará trabalhar 151 dias em 2025 apenas para pagar tributos — dois dias a mais que no ano anterior. Apesar do peso da carga, os indicadores de qualidade dos serviços públicos continuam baixos, gerando sensação de desequilíbrio na relação contribuinte-Estado.
Um dos destaques é o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que afeta diretamente o acesso ao crédito, encarecendo linhas essenciais para capital de giro, financiamento imobiliário e mesmo uso do cartão de crédito.
Investimentos também sob pressão fiscal
Como se não bastasse o impacto sobre o consumo e o crédito produtivo, os investidores também sentem o peso da tributação. Segundo análise da Nord Investimentos, o governo passou a tributar produtos antes incentivados, como LCI, LCA, VGBL, e elevou a tributação de aplicações maiores, afetando o planejamento de longo prazo e aumentando a percepção de insegurança jurídica no ambiente financeiro.
Um retrato lúcido: alta arrecadação x fragilidade produtiva
O ponto central da análise está no desequilíbrio estrutural: arrecada-se como nunca, mas o sistema econômico não distribui eficiência, nem traduz esse volume em estabilidade para quem produz, gera emprego e investe.
Esse paradoxo revela uma economia onde o Estado amplia sua presença fiscal — por necessidade, pressão política ou ambos — mas sem garantir contrapartida proporcional em infraestrutura, segurança jurídica ou incentivos reais à produtividade.
Reflexão para quem empreende
Em vez de respostas simplistas, o cenário demanda lucidez estratégica. A realidade é que o ambiente macro não parece prestes a mudar — o que obriga as empresas a aperfeiçoarem sua gestão, controlarem margens, monitorarem tributos pagos indevidamente e protegerem capital com inteligência.
Mais do que resistir, o desafio agora é reaprender a operar sob pressão contínua, sem depender de soluções externas. Porque, no Brasil de 2025, o empreendedor bem informado é, acima de tudo, um gestor de risco.
Prof. Saul Sastre – OAB/RS. 138.752